quinta-feira, 17 de maio de 2018

Deep Purple - Long Beach 1971 (2015/2018)


Deep Purple - Long Beach 1971 (2015/2018)
(earMUSIC/Shinigami Records - Nacional)


01. Speed King
02. Strange Kind Of Woman
03. Child In Time
04. Mandrake Root

Desde 2013, a earMUSIC vem lançando uma série de álbuns ao vivo do Deep Purple, através da The Official Deep Purple (Overseas) Live Series, que cobrem a fase setentista da banda, com as MK II, III e IV. Por mais que não se tratem de materiais totalmente inéditos, já que bootlegs dos mesmos eram conhecidos pelos mais aficionados, os mesmos valem como o resgate de um período em que o grupo não deixava pedra sobre pedra em cima de um palco, com shows realmente memoráveis. Long Beach 1971 foi gravado e transmitido pela Rádio KUSC 91.5 FM, e vale dizer que nesse dia estavam abrindo para o The Faces, de Rod Stewart.

No repertório, temos apenas 4 músicas, mas que chegam perto dos 70 minutos de duração, algo totalmente normal nesse período para Ian Gillan (vocal), Ritchie Blackmore (guitarra), Roger Glover (baixo), Ian Paice (bateria) e Jon Lord (teclado). Longas jams, improvisações e longos solos de todos os instrumentistas eram características muito comuns para o Deep Purple nos anos 70. A verdade é que nos anos 70, em cima de um palco, o Deep Purple não era uma simples banda, mas a personificação de uma força da natureza. Todos os músicos brilham em algum momento. Gillan está simplesmente soberbo, enquanto Blackmore e Lord soam monstruosos, no melhor sentido da palavra. Já Roger Glover mostra a categoria que sempre lhe foi marcante, enquanto Paice deixa claro o motivo de ser um dos maiores bateristas de todos os tempos.

 

O Purple estava na época do clássico In Rock (70) e, de cara, abre a apresentação com a fantástica “Speed King”, em uma versão de tirar o fôlego. Na sequência, nada menos que “Strange Kind Of Woman”, que havia saído apenas em single e que acabou por fazer parte do álbum seguinte, Fireball (71). Destaques para os solos e para o duelo entre a voz de Gillan e a guitarra de Blackmore. Chega então a vez de “Child in Time”, onde o centro das atenções fica com o saudoso Jon Lord. Simplesmente incrível. Encerrando, “Mandrake Root”, retirada do álbum de estreia da banda, Shades of Deep Purple (68). Tem peso, ótimas melodias e é uma daquelas raras oportunidades que você tem de escutar em CD uma música da MK I tocada pela MK II.

Como já dito, originalmente esse material foi gravado e transmitido por uma rádio. Para esse lançamento, a apresentação foi remasterizada, deixando o que era bom ainda melhor. A qualidade do som não está menos do que ótima. Sempre me pergunto se o mundo precisa de mais um álbum ao vivo do Deep Purple, afinal, nessas 5 décadas de carreira foram lançados dezenas de trabalhos nesse formato, e no final sempre chego à mesma conclusão: sim, o mundo precisa. Uma das bandas mais importantes de todos os tempos em sua melhor forma. Precisa de motivo maior do que esse para ter Long Beach 1971 na sua coleção? Acho que não.

NOTA: 89

Deep Purple (gravação):
- Ian Gillan (vocal);
- Ritchie Blackmore (guitarra);
- Roger Glover (baixo);
- Jon Lord (teclado);
- Ian Paice (bateria).

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

We Sell The Dead - Heaven Doesn’t Want You And Hell Is Full (2018)


We Sell The Dead - Heaven Doesn’t Want You And Hell Is Full (2018)
(earMUSIC/Shinigami Records - Nacional)


01. The Body Market
02. Echoes Of An Ugly Past
03. Leave Me Alone
04. Imagine
05. Turn It Over
06. Too Cold To Touch
07. Trust
08. Pale And Perfect
09. Silent Scream

Pode parecer esquisita tal afirmação, mas o sueco We Sell The Dead é o que podemos chamar de um “quase supergrupo”. Isso porque Apollo Papathanasio (vocal/Spiritual Beggars, Firewind), Niclas Engelin (guitarra/In Flames), Jonas Slättung (baixo/Drömriket) e Gas Lipstick (bateria/ex-HIM) podem não estar entre as grandes estrelas do Metal, mas indiscutivelmente são ótimos músicos, experientes, e tocam/tocaram em nomes que são respeitados por muitos fãs do estilo. Heaven Doesn’t Want You And Hell Is Full é seu trabalho de estreia e, segundo a própria banda, o mesmo parte de uma premissa interessante: e se Jack, o Estripador, tivesse tocado em uma banda de Metal?

Daí para frente, o We Sell The Dead mergulha quase que totalmente, ao menos liricamente, na estética do período vitoriano. A isso, some-se um instrumental que em sua base me remeteu bastante ao que o Black Sabbath fez nos anos 80, permeado por uma aura gótica bem interessante, e sim, alguns elementos mais modernos, onde podemos escutar alguma coisa do tal do som de Gotemburgo. Na teoria isso soa bem interessante, e realmente em muitos momentos o é, mas a verdade é que não funciona 100% do tempo. Durante toda a audição, momentos carregados de energia e vibração são intercalados por outros um tanto frios, principalmente a partir da segunda metade do trabalho. Nem sempre as boas ideias que surgem conseguem ser bem aproveitadas. Quando você constata isso, fica inevitável fazer um trocadilho com o título do álbum usando aquele velho ditado: “De boas intenções, o inferno está cheio”.

 

Mas deixo claro que mesmo com alguns pequenos percalços, Heaven Doesn’t Want You And Hell Is Full está longe de ser um álbum ruim, até mesmo pelos nomes aqui envolvidos. Apollo mostra toda a sua categoria como vocalista, e consegue soar bem variado, apesar de rolar um certo estranhamento inicial entre sua voz, mais melódica, e o apelo mais sombrio das canções. Niclas também se destaca com bons riffs e por conseguir, em diversos momentos, encaixar uma pegada mais moderna nas canções, deixando-as atuais. Os principais destaques ficam por conta das ótimas  “Echoes Of An Ugly Past”, com bom trabalho de guitarra, as pesadas “Leave Me Alone” e “Imagine”, essa última com um pé no som de Gotemburgo, e “Trust”, uma interessante mescla de Doom com Gótico e Metal moderno. No fim, não dá para negar, mesmo com algumas ressalvas, que ele acaba sendo um álbum fácil de escutar e que rende 42 minutos de bom divertimento

Gravado, mixado e masterizado no Crehate Studios (Suécia), por Oscar Nilsson, o material possui um ótimo nível de produção, já que mesmo com tudo bem claro, limpo e audível, ainda assim ficou pesado. Os timbres também foram muito bem escolhidos. Não só a capa, como toda a parte de design ficou muito legal, sendo obra de Dan Lind. Vale dizer também que ele é o responsável por toda a apresentação visual da banda, já que a ideia é misturar isso à parte multimídia e musical, algo que pode ser observado nos vídeos já lançados (e que podem ser vistos logo abaixo). O We Sell The Dead pode não acertar em 100% do tempo, mas possui uma virtude rara em se tratando de um projeto desse porte. Em momento algum tentam se parecer com as bandas originais de seus integrantes e durante todo o tempo buscam uma personalidade própria. Só isso já basta para ficarmos de olho e esperarmos pelo próximo lançamento, já que o potencial para voar mais alto está mais do que latente nesse debut.

NOTA: 80

We Sell The Dead É:
- Apollo Papathanasio (vocal);
- Niclas Engelin (guitarra);
- Jonas Slättung (baixo);
- Gas Lipstick (bateria).

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terça-feira, 15 de maio de 2018

Corrosion of Conformity – No Cross No Crown (2018)


Corrosion of Conformity – No Cross No Crown (2018)
(Nuclear Blast/Shinigami Records - Nacional)


01. Novus Deus
02. The Luddite
03. Cast The First Stone
04. No Cross
05. Wolf Named Crow
06. Little Man
07. Matre’s Diem
08. Forgive Me
09. Nothing Left To Say
10. Sacred Isolation
11. Old Disaster
12. E.L.M.
13. No Cross No Crown
14. A Quest To Believe (A Call To The Void)
15. Son and Daughter (Queen Cover)

Do Hardcore/Crossover do início de carreira, até o Stoner Metal dos dias de hoje, o Corrosion of Conformity sempre primou pela qualidade, independentemente da fase. Trabalhos como Animosity (85), Blind (91), a dobradinha Deliverance (94)/Wiseblood (96) e In the Arms of God (05) estão aí para mostrar isso para qualquer um que queira confirmar essa afirmação (algo que recomendo). Em 2006 o COC deu uma parada, retornando apenas em 2010 com o seu trio fundador, e sem Pepper Keenan, que naquela altura estava se dedicando ao Down. Após isso, 2 álbuns foram lançados, Corrosion of Conformity (12) e IX (14), mas no fundo, todos desejávamos mais do que isso.

A verdade é que boa parte de seus fãs ansiava pelo retorno de Pepper à banda, com a restauração daquela formação clássica que tocou entre 1993 e 2001 e que foi responsável pelos maiores clássicos do grupo. Ok, essa mesma formação também lançou America’s Volume Dealer (00), seu álbum mas discutível (e, ainda assim, longe de ser ruim), mas ninguém questiona a capacidade de Keenan (vocal/guitarra), Woody Weatherman (guitarra), Mike Dean (baixo) e Reed Mullin (bateria) de compor música de qualidade. E é isso que o quarteto faz em No Cross No Crown, seu 10º trabalho de estúdio.

Se tem uma coisa que esses caras sabem fazer muito bem, é misturar aquele Heavy Metal “sabbathico” com o melhor do Rock sulista, e o melhor de tudo, sem precisar se copiar. Eles poderiam simplesmente deitar sobre os louros do passado e lançar um álbum apenas por lançar, para agradar aos fãs desejosos de ver o quarteto junto novamente, mas felizmente optaram por não serem burocráticos, nos presenteando com seu melhor trabalho desde 1996. Aqui temos tudo que esperamos de um álbum do COC, ou seja, os vocais marcantes de Pepper, que também brilha ao lado de Woody com ótimos riffs, e uma parte rítmica coesa, pesada e criativa, formada por Mike e Reed. O peso, a energia e a vitalidade que brotam de cada música impressiona, e mostra que os 4 ainda têm muita lenha para queimar, se essa for a vontade dos mesmos. 


No Cross No Crown segue um padrão no mínimo curioso. O mesmo possui alguns interlúdios, que acabam por dividir o álbum em blocos formados por 2 músicas cada. O primeiro deles já surge logo na abertura, intitulado “Novus Deus”, sendo seguido por dois dos maiores destaques de todo o CD, a viciante “The Luddite” e a enérgica “Cast The First Stone”, com seu belo trabalho de guitarra. “No Cross” é o segundo interlúdio e surge para dar um necessário descanso, já que logo após temos a feroz “Wolf Named Crow” e  “Little Man”, com seus ótimos riffs e melodias. Mais um interlúdio (“Matre’s Diem”) e então temos a divertida “Forgive Me”, uma mescla perfeita de Stoner e Southern Rock, com destaque para os ótimos solos. Já “Nothing Left To Say” tem uma irresistível pegada Blues e ótimos vocais. Mais uma parada para o descanso com “Sacred Isolation” e então temos “Old Disaster”, onde soam como uma versão Metal do The Allman Brothers Band. É dessas músicas que cativam fácil o ouvinte. Outra que cativa é “E.L.M.”, onde a veia Black Sabbath da banda pulsa com força. Apesar de “No Cross No Crown” não ser propriamente um interlúdio, ele acaba por ocupar essa função, já que é uma faixa bem tranquila. Finalizando, temos a ótima “A Quest To Believe (A Call To The Void)”, com seus riffs arrastados e harmonias de guitarra marcantes e o improvável cover para “Son and Daughter”, do Queen, que ficou realmente muito legal.

A produção mais uma vez ficou nas mãos de John Custer, com mixagem de Mike Fraser (com quem trabalharam na época de Wiseblood) e masterização de Seva (outro velho conhecido da banda, dos tempos de America’s Volume Dealer). A qualidade, claro, não poderia ser melhor. Já a capa e toda parte de design e layout ficou por conta de Vance Kelly (Down, Prong, Them), com ótimos resultados. Poderíamos estar diante de apenas mais um álbum de reunião, desses que muitas bandas por ai fazem apenas para agradar os fãs, mas o que temos em  No Cross No Crown é, sem exageros, o melhor álbum do Corrosion of Conformity desde o clássico Wiseblood. Agora só nos resta esperar que Pepper, Mike, Woody e Reed continuem firmes e fortes nessa parceria. Um álbum que certamente estará em muitas listas de melhores do ano.

NOTA: 89

Corrosion of Conformity:
-  Pepper Keenan (vocal/guitarra);
- Woody Weatherman (guitarra);
- Mike Dean (baixo);
- Reed Mullin (bateria);

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Desalmado - Save Us From Ourselves (2018)


Desalmado - Save Us From Ourselves (2018)
(Black Hole Productions - Nacional)


01. Privilege Walls
02. It´s Not Your Business
03. Save Us From Ourselves
04. Black Blood
05. Blessed By Money
06. Bridges To a New Dawn
07. Corrosion
08. Binary Collapse
09. Exist And Resist

Para quem desconhece, o Desalmado surgiu no ano de 2004, e desde então vem construindo uma carreira muito sólida dentro do cenário do Grindcore nacional. A estreia se deu com o EP Hereditas (08), sendo acompanhado pelo seu debut, Desalmado (12), por um novo EP, Estado Escravo (14), e um split com o Homicide, In Grind We Trust (16). Save Us From Ourselves é seu segundo trabalho completo de estúdio, e o primeiro em que optam por cantar em inglês, mostrando uma maior ambição do quarteto quanto a levar sua forte mensagem ao maior número de pessoas mundo afora.

Musicalmente falando, seu Grindcore sempre recebeu muitas influências de outros estilos, o que deu à banda uma personalidade que a diferenciou da maioria de suas parceiras do cenário nacional. Já em Save Us From Ourselves podemos enxergar uma banda ainda mais madura, mas sem perder seu lado agressivo e odioso. As canções estão melhores trabalhadas e mais coesas, e trafegam com muita naturalidade entre diversos estilos. Aqui você tem momentos de Death Metal, Grind, Hardcore, Thrash/Groove e Black Metal, tudo coexistindo perfeitamente e gerando uma música absurdamente pesada e bruta. O Desalmado foge do lugar-comum e acaba acertando em cheio no alvo. Vale citar as letras, que felizmente destoam por completo dessa onda conservadora que a cada dia toma mais conta do Metal no Brasil.


É difícil imaginar uma forma melhor de abrir o álbum do que com “Privilege Walls”, uma bicuda no pé do ouvido, simplesmente destruidora. Na sequência temos a direta e empolgante “It´s Not Your Business” e  “Save Us From Ourselves”, que alterna passagens mais velozes com outras cadenciadas e possui ótimo groove. Essa alternância, por sinal, surge em outros momentos do álbum e faz muito bem à sonoridade do Desalmado.  “Black Blood” é outra que vai direto ao ponto, devastando tudo pelo caminho. As agressivas “Blessed By Money” e  “Bridges To a New Dawn” também apostam na diversidade, e brilham nas partes com mais cadência. Ao lado da faixa título, são as melhores de todo o trabalho. “Corrosion” é uma verdadeira pedrada, veloz e brutal, e  “Binary Collapse” é o que podemos chamar de massacre em forma de música. “Exist And Resist” encerra o álbum de forma brutal e opressiva, graças às passagens cadenciadas.

Gravado no Family Mob Studio (São Paulo/SP), o álbum foi produzido pela banda e por Hugo Silva, que também foi o responsável pela mixagem. O resultado final é simplesmente excelente, com uma produção de ponta que não fica devendo nada às bandas lá de fora. Já a capa foi obra de Jeca Paul e reflete com perfeição o conteúdo musical e lírico do trabalho. Com um som técnico, coeso, bem trabalhado, mas que não abre mão de ser brutal e absurdamente pesado, o Desalmado mostra estar em seu melhor momento, e melhor, com potencial para ir muito mais além. Curte nomes como Napalm Death, Entombed, Extreme Noise Terror e afins? Está aqui um trabalho mais do que indicado para você.

NOTA: 8,5

Desalmado é:
- Caio Augusttus (vocal);
- Estevam Romera (guitarra);
- Bruno Leandro (baixo);
- Ricardo Nutzmann (bateria).

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quarta-feira, 9 de maio de 2018

Expurgo - Deformed By Law (2018)


Expurgo - Deformed By Law (2018)
(Black Hole Productions - Nacional)


01. Silence
02. Victimized
03. Inhale Radiation Fumes
04. Carnivorous Eyes
05. Dead as Fuck
06. Xenon Pieces Swallowed
07. Interlude
08. The Taste Of Human Toxicity
09. Discurso Do Cadafalso
10. Nasty Gut Feast
11. Classic Utopia Of a Junkie Ambience
12. All Substances Are Toxic Under The Right Conditions
13. Habemus Cannis
14. Deviled Mind
15. Morgue Despair
16. Lungs Decay
17. Devil Variation
18. Sadistic Executioner
19. Harmless Scares
20. Agateophobia
21. Atmosphere Of Horror
22. Deploring Connections
23. Global Suppuration
24. Grey Waste III - Malebolge
25. Walk Among The Dead
26. On The Edge
27. Obsolescence

Quando você se torna fã de Metal, seja de alguma banda ou de algum estilo específico, você o faz por encontrar beleza ali. Aquilo que está escutando soa agradável aos seus ouvidos, te desperta sensações que de alguma forma lhe fazem bem. E se formos pensar bem, isso vale para todos os campos da vida. Nos atraímos pelo que achamos belo. Talvez por isso o Grindcore seja um estilo para poucos, já que sejamos sinceros, poucos conseguem encontrar essa citada beleza em uma música que prima pela velocidade extrema, pela agressividade no seu estado mais bruto e a quase que completa ausência de melodias. É uma música vil, infame, abjeta por natureza. E querem saber? Por isso mesmo é tão legal.

O Expurgo é uma dessas bandas que me faz lembrar porque gosto tanto do estilo. Surgido nas “Minas Hellrais”, mais precisamente na capital Belo Horizonte, no ano de 2001, o quarteto hoje formado por Egon (vocal), Philipe (guitarra/vocal), Sérgio (baixo) e Anderson (bateria) finalmente nos apresenta o sucessor de Burial Ground, seu debut lançado no ano de 2010. Vale dizer que nesse meio tempo, os caras continuaram produzindo, tendo lançado nada menos do que 6 splits (possuem outros 5, lançados antes de álbum de estreia, e uma demo) e uma compilação, com material lançado desde seu surgimento até o ano de 2013.

Em Deformed By Law, temos uma verdadeira aula de como se fazer música extrema, e que soa ainda mais repulsiva que em sua estreia (e isso é um elogio, ok?). São 27 canções que se destacam pela crueza, visceralidade e rispidez, sem espaço para melodias bonitinhas. É uma marretada atrás da outra, sem dó nem piedade com os ouvidos alheios. Um verdadeiro genocídio em forma de música. Os vocais de Egon estão monstruosos, enquanto a guitarra de Philipe não dá descanso, com riffs capazes de ceifar tantas vidas quanto a Morte, de tão cortantes. Na parte rítmica, Sérgio e Anderson não deixam pedra sobre pedra. É como um terremoto seguido de um tsunami, tamanho poder de destruição. Carnificina pura.


Destaques? Olha, me perdoem, mas não vou conseguir fugir daquele clichê do “todas as músicas estão no mesmo nível, sendo difícil apontar destaques”. E sabe por quê? Porque todas as músicas estão no mesmo nível, sendo...bem, vocês já entenderam. Se realmente achar que seus tímpanos dão conta de não sangrarem durante a audição, experimente escutar faixas como “Victimized”,  “Inhale Radiation Fumes”, “Xenon Pieces Swallowed”, “The Taste Of Human Toxicity”, “Discurso Do Cadafalso”, “Deviled Mind”, “Lungs Decay”, “Sadistic Executioner”, “Harmless Scares”, “Atmosphere Of Horror”, “Global Suppuration”, “Walk Among The Dead” e “On The Edge”, verdadeiras hecatombes musicais.

Gravado no Estúdio Multimídia, em Belo Horizonte, o álbum teve sua produção, mixagem e masterização realizadas por Dennis Israel, no ClintWorks Arts, em Hamburgo, Alemanha. O resultado final soa perfeito, já que apesar de ser possível escutar todos os instrumentos com clareza, ainda assim soa como um álbum de Grindcore. A capa é uma bela obra de Pedro Felipe (Ars Moriendee), e se encaixa perfeitamente na proposta musical. Com um peso descomunal, e esbanjando brutalidade e selvageria, Deformed By Law certamente causará surdez aos ouvidos mais delicados, e coloca o Expurgo entre as principais bandas do estilo no cenário mundial. Como diz o título de um velho clássico do cinema italiano, “Brutti, sporchi e cattivi”. Um álbum feio, sujo e mau!

NOTA: 88

Expurgo é:
- Egon (vocal);
- Philipe (guitarra/vocal);
- Sérgio (baixo);
- Anderson (bateria).

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terça-feira, 8 de maio de 2018

Encéfalo – DeaThrone (2018)


Encéfalo – DeaThrone (2018)
(Shinigami Records - Nacional)


01. Intro
02. Echoes From The Past
03. Visceral Sadism
04. Annihilation Contempt to The Majesty
05. Blessed By The Wrong Choice
06. Hell
07. These Final Rotten Days
08. Food For Tyranny
09. Retaliation
10. A Hollow Body

Surgido em 2002, em Fortaleza/CE, o Encéfalo veio aos poucos construindo uma sonoridade própria. No início, tínhamos um Thrash Metal calcado nos grandes nomes do estilo, como Kreator, Sepultura e Slayer, com elementos de Death aqui e ali, como pode ser bem observado no seu debut, Slave of Pain (12), trabalho que colocou os cearenses como um dos nomes mais promissores da cena metálica brasileira. O passo seguinte, o ótimo Die to Kill (15), não só os consolidou no cenário, como mostrou maior presença do Death Metal na sonoridade do até então quarteto.

DeaThrone é a continuação natural de Die to Kill, e o título já deixa bem claro o que iremos encontrar ao colocar o CD para rodar. Estreando em estúdio como um trio, formado por Henrique Monteiro (vocal/baixo), Lailton Sousa (guitarra) e Rodrigo Falconieri (bateria), o Encéfalo nos entrega uma música técnica, pesada, absurdamente agressiva, e quase que imersa por completo no Death Metal, já que o Thrash ainda pode ser notado na composição de alguns riffs. Para completar, não apelam apenas para a velocidade, como muitos grupos por aí. Sua música se mostra variada, e algumas passagens cadenciadas surgem muito bem colocadas, evitando assim que suas composições soem cansativas. É o Encéfalo encontrando sua maturidade musical.


Descontando-se a primeira faixa, que é uma introdução, o que temos são 9 músicas que não darão alívio um segundo sequer para os pescoços dos ouvintes. “Echoes From The Past” é um ótimo cartão de visitas, com toda a sua brutalidade e técnica, enquanto “Visceral Sadism” se destaca pelas guitarras, que nos entregam riffs marcantes. “Annihilation Contempt to The Majesty” é um dos pontos altos do trabalho, sendo o melhor exemplo de como a alternância entre velocidade e cadência faz bem à música do trio. A sequência formada por “Blessed By The Wrong Choice”, a instrumental “Hell” e  “These Final Rotten Days” esbanjam agressividade e energia, enquanto “Food For Tyranny” é uma verdadeira aula de Death Metal. Encerrando, “Retaliation” e “ A Hollow Body” mostram muita técnica, peso e riffs que remetem ao passado Thrash da banda.

A produção de André Noronha ficou muito boa, já que está tudo claro e audível, mas sem abrir mão da agressividade e de uma saudável dose de sujeira, afinal, estamos falando de um álbum de Death Metal. Já a capa foi obra de Ygor Nogueira, e ficou muito boa, estando com o mesmo alto nível de qualidade que o trabalho em si. Bruto, agressivo e técnico, o Encéfalo segue evoluindo, maturando cada vez mais a sua sonoridade, e deixando de ser aquela promessa que escutamos no debut para se tornar uma realidade, assumindo assim seu lugar entre os grandes do Metal Nacional. Certamente um dos grandes álbuns nacionais de 2018.

NOTA: 84

Encéfalo é:
- Henrique Monteiro (vocal/baixo);
- Lailton Sousa (guitarra);
- Rodrigo Falconieri (bateria).

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Melhores álbuns – Abril de 2018


No primeiro domingo de cada mês o A Música Continua a Mesma fará uma lista com os melhores álbuns do mês anterior. Nela, respeitaremos as datas oficiais de cada lançamento, então sendo assim, não contaremos a data que os mesmos vazaram na internet, mas sim quando efetivamente foi ou será lançado.

Sendo assim, ai vão os melhores lançamentos de abril na opinião do A Música Continua a Mesma.

1º. Riot V - Armor Of Light 


2º. Expurgo - Deformed by Law
 

3º. Leather - II
 

4º. The Dead Daisies - Burn It Down 


5º. Varathron - Patriarchs Of Evil


6º. Cruachan - Nine Years Of Blood
 

7º. Black Stone Cherry - Family Tree


8º. Saffire - Where The Monsters Dwell


9º. The Reign of Kindo - Happy However After


10º. Bullet - Dust To Gold
 

Menções Honrosas

- Ross The Boss - By Blood Sworn


- Kobra And The Lotus – Prevail II


- Blitzkrieg - Judge Not!


- Siriun - In Chaos We Trust

 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Epica - The Solace System (EP) (2017)


Epica - The Solace System (EP) (2017)
(Nuclear Blast/Shinigami Records)


01. The Solace System
02. Fight Your Demons
03. Architect Of Light
04. Wheel Of Destiny
05. Immortal Melancholy
06. Decoded Poetry

Não nego que por muito tempo eu tinha os dois pés atrás com o Epica. Por mais que eu soubesse que seus fãs amavam álbuns como The Phantom Agony (03) e Consign to Oblivion (05), a banda realmente não me empolgava. Por mais ridículo que possa soar o que vou falar agora, para mim não passava “daquela banda holandesa com a vocalista ruiva bonitinha pela qual o povo aí fica babando”. E sinceramente, continuei com essa visão meio tosca até o lançamento de Requiem for the Indifferent (12), o álbum que disparou um gatilho interno e de certa forma me tornou fã do trabalho do sexteto formado hoje por Simone Simons (vocal), Mark Jansen (guitarra/vocal), Isaac Delahaye (guitarra/vocal), Rob van der Loo (baixo), Coen Janssen (teclado) e Ariën van Weesenbeek (bateria/vocal).

A maturidade musical que o Epica vem mostrando desde então é algo que me impressiona. Mais do que nunca, souberam trazer sua música para os tempos atuais, mas sem deixar de lado qualquer uma de suas características básicas, e seu trabalho anterior, The Holographic Principle (16) é a maior prova disso. E o que temos aqui em The Solace System é a continuação natural deste, até porque as músicas aqui presentes foram compostas na mesma época e só não entraram no álbum por uma questão limitação de espaço do CD, e de o formato de CD duplo não ser algo do agrado da banda. Dessa forma, optaram por guardar as canções e soltar um EP em 2017.

O mais legal é que, apesar de teoricamente serem sobras de estúdio, na prática todas poderiam ter entrado em The Holographic Principle sem qualquer problema. A qualidade das 6 músicas aqui presentes é exatamente a mesma do trabalho principal, o que acaba por fazer desse um material que o fã precisa ter em sua coleção, já que não se trata de um simples caça-níquel. Os vocais de Simone estão ali, no centro de tudo, brilhando cada vez mais, e as orquestrações e coros são definitivamente grandiosos. As guitarras soam pesadas, e com uma sonoridade bem moderna, o que dá um diferencial à banda, pois sua música não soa parada no tempo. É esse peso que acaba por colocar o Epica bem à frente da concorrência, já que o Sinfônico nunca prevalece sobre as guitarras, mas sim as complementa. É um álbum de Heavy Metal acima de tudo.


Definir as 6 canções aqui presentes é muito simples. É um Power/Prog Metal Sinfônico, com alguns elementos típicos do Death Metal surgindo aqui e ali, pesado, agressivo e grandioso, com partes sinfônicas e coros bombásticos e impactantes. Abrindo o EP temos “The Solace System”, que de cara nos entrega corais explosivos (que perpassam toda a canção), seguidos de guitarras pesadas e ótimas melodias. Se a abertura já impressiona, o que dizer da música seguinte, “Fight Your Demons”. As orquestrações e coros são de cair o queixo, acompanhadas de muito peso, melodias grudentas e com uma dinâmica vocal muito boa. Por mais que seja algo clichê, essa mistura dos vocais de Simone com os guturais de Jansen funciona com perfeição para o Epica. “Architect Of Light” mantém o nível do EP no alto, com ótimas guitarras e um refrão empolgante, enquanto “Wheel Of Destiny” se mostra bem variada, esbanjando peso e energia. “Immortal Melancholy” é uma balada muito emocional e bonita, baseada na guitarra, algo que não me lembro da banda ter feito antes (sempre tiveram como base para as baladas o Piano), e encerrando,  “Decoded Poetry”, mais uma a nos entregar muito peso unido a orquestrações marcantes e grandiosas.

Toda a parte de produção ficou por conta de Joost van den Broek e Jacob Hansen, e em nada difere do que tivemos em The Holographic Principle, até porque como já dito, tudo saiu das mesmas sessões de gravação. A capa, novamente ficou por conta de Stefan Heilemann, e também remete em alguns aspectos à do trabalho anterior. O Epica, mais do que tudo, soa enérgico e intenso, e mesmo com tanta coisa ocorrendo ao mesmo tempo, a verdade é que suas canções conseguem soar bem orgânicas e naturais, algo raro nos dias de hoje. E que bom que resolveram presentear seus fãs com tais músicas, pois seria um pecado músicas de tamanha qualidade ficarem esquecidas.

NOTA:91

Epica é:
- Simone Simons (vocal)
- Mark Jansen (guitarra/vocal)
- Isaac Delahaye (guitarra/vocal)
- Rob van der Loo (baixo)
- Coen Janssen (teclado)
- Ariën van Weesenbeek (bateria/vocal)

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Loudness – Rise To Glory (2018)


Loudness – Rise To Glory (2018)
(earMUSIC/Shinigami Records - Nacional)


CD 1 - Rise To Glory
01. 8118 (Instrumental)
02. Soul On Fire
03. I’m Still Alive
04. Go For Broke
05. Until I See The Light
06. The Voice
07. Massive Tornado
08. Kama Sutra (Instrumental)
09. Rise To Glory
0. Why And For Whom
11. No Limits
12. Rain
13. Let’s All Rock

CD 2 - Samsara Flight
01. Street Woman
02. The Law Of Devil’s Land
03. Loudness
04. In The Mirror
05. Black Wall
06. Rock Shock (More And More)
07. Lonely Player
08. Devil Soldier
09. Burning Love
10. Angel Dust
11. Road Racer
12. Rock The Nation
13. To Be Demon

Lá se vão quase 4 décadas de história (surgiram em 1981) e a incrível marca de 28 álbuns lançados (muitos apenas no mercado japonês). O Loudness é o maior exponente do Metal quando falamos de Japão, tendo conseguido até mesmo certa popularidade nos Estados Unidos durante meados dos anos 80 (com os álbuns Thunder in the East (85) e Lightning Strikes (86)), sendo não só a primeira banda de seu país a assinar contrato com uma grande gravadora americana, como também a entrar no Top 100 da Billboard. Apesar disso, nunca chegaram realmente a explodir no Ocidente e a conquistar o mesmo reconhecimento de público que possuem em seu país.

Durante todo esse tempo, o guitarrista Akira Takasaki guiou firmemente o Loudness, não esmorecendo em momento algum. Em 2001, o retorno da formação original se mostrou a melhor opção, e o que era para ser algo que comemoraria os 20 anos de carreira acabou se tornando definitivo. Obstantes algumas escorregadas aqui e ali, a verdade é que tudo começou a entrar nos trilhos novamente, e nem mesmo o triste falecimento do baterista Munetaka Higuchi em 2008 (vitimado por um câncer de fígado) tirou a banda de seu rumo. Vindo de uma sequência de bons trabalhos, como King of Pain (2010) e 2012 (2012), é claro que a curiosidade para escutar Rise To Glory, seu 28º álbum de estúdio, não era pouca.

E se você é fã do Loudness, com certeza não irá se decepcionar. O que temos aqui é um trabalho que, acima de tudo, soa muito espontâneo, natural e principalmente, tradicional. Minoru Niihara mostra um ótimo desempenho vocal, cantando de forma superior ao que escutamos por exemplo, em The Sun Will Rise Again (14). Akira Takasaki dispensa comentários, pois quem o conhece sabe bem da sua capacidade como guitarrista. Seu desempenho é não menos que é excelente, com destaque para os riffs (bem na linha Hard/Heavy oitentista) e ótimos solos, cheios de melodia. A parte rítmica, com o baixista Masayoshi Yamashita e o baterista Masayuki "Ampan" Suzuki, se mostra coesa, firme, variada e pesada, ajudando muito no resultado final.


Descontando-se a instrumental que serve de introdução, são 12 faixas que conseguem manter um bom nível, por mais que na segunda metade tenhamos uma leve queda de qualidade (mas que em nada compromete o resultado final). Os destaques ficam por conta de “Soul On Fire”, forte, enérgica e com um refrão muito bom, a acelerada  “I’m Still Alive”, que apesar da pegada bem Heavy Tradicional, não se furta de alguns toques de Speed/Thrash aqui e ali, a simples e efetiva “Go For Broke”, que vai remeter alguns ao Accept, a estrondosa e pesada “Massive Tornado”, com um de seus pés bem fincados no Thrash, e a espetacular e acelerada “Rise To Glory”, uma dessas faixas viciantes, com ótimos riffs e melodias. Uma aula de Heavy Tradicional. E vale citar que de bônus, temos um CD Samsara Flight, que havia sido lançado no Japão em 2016, com regravações de antigas canções da banda.

A produção ficou por conta da própria banda, com a mixagem feita por Masatoshi Sakimoto e masterização a cargo de Chris Bellman (Cirith Ungol, Metallica, Forbidden). O resultado foi muito bom, com tudo bem claro, limpo, mas pesado e vivo. A parte gráfica foi obra de Iwata Room, com quem trabalharam em seus dois últimos lançamentos, The Sun Will Rise Again e Samsara Flight. No fim, o que temos é um belo álbum de Heavy Metal, dinâmico, divertido e diversificado, como todos deveriam ser.

NOTA: 85

Loudness é:
- Minoru Niihara (vocal);
- Akira Takasaki (guitarra);
- Masayoshi Yamashita (baixo);
- Masayuki Suzuki (bateria).

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terça-feira, 17 de abril de 2018

Fabiano Negri - The Lonely Ones (2018)


Fabiano Negri - The Lonely Ones (2018)
(Independente – Nacional)


01. Last Stand
02. Distant Shore
03. Lost Strangers
04. Behind The Sun
05. All Those Minds
06. Day After Day
07. Raped
08. Bad Love Song
09. Morning Rain
10. Let There Be Life

O mundo está doente. Uma simples passada na timeline ou nos grupos de redes sociais, ou mesmo em conversas descompromissadas no dia a dia, e o que vemos são os valores humanos se perdendo. A cada dia as pessoas vão se tornando mais intolerantes, a dificuldade de respeitar o outro, seja “semelhante” ou “diferente”, é cada vez maior. Comportamentos abusivos, arrogantes e depreciativos se tornam cada vez mais comuns. Intolerância, negligência, inveja, arrogância, egoísmo, cinismo é o que se tem de sobra. O foco é destruir o outro, seus sentimentos e esperanças, e para isso não se medem as palavras. Tudo é certo, desde que a pessoa que age julgue aquilo certo, independentemente de qualquer lei e de qualquer noção de respeito. “E daí se sou intolerante com o que é diferente, o que importa é o que acho certo!”. Falta amor e sobra ódio no mundo de hoje, e assim ele adoece cada vez mais.

Em um mundo cada vez mais embrutecido e ensandecido, como uma pessoa que sofre de depressão (que muitos rotulam de mimimi, em uma atitude que reflete tudo que escrevi no parágrafo acima) ou que possui dificuldade de se socializar sobrevive? Qualquer um que convive ou conviveu com tais problemas, seja por experiência própria ou através de pessoas próximas, sabe que nada disso é brincadeira ou frescura. E é isso que Fabiano Negri, um dos músicos mais talentosos do Rock nacional, resolveu abordar em The Lonely Ones, 22º álbum de sua carreira (contando carreira solo e as bandas das quais participa/participou).

A depressão e a dificuldade de socialização são os temas centrais aqui, e que, como o próprio Fabiano fez questão de frisar no release enviado à imprensa, são ligados abordando a história de um único indivíduo e da sua dificuldade de conviver nessa sociedade cada vez mais doente. Para completar esse panorama, resolveu adotar uma abordagem musical diferente da de costume, já que The Lonely Ones é um álbum acústico, totalmente na base da voz e violão, deixando o clima não só ainda mais intimista, como também mais emocional e reflexivo. É um trabalho que te coloca para pensar. A opção pelo formato acústico possibilita que Fabiano Negri mostre todo o seu talento como músico. O tema em si e a profundidade das letras exigem uma versatilidade vocal muito grande, já que cada faixa expressa um momento, uma emoção diferente, algo que ele consegue muito bem. Seu trabalho de violão se mostra muito inspirado, entregando ao ouvinte ótimas melodias. 


O resultado final é um álbum extremamente emocional, sentimental, um trabalho fortíssimo e que merece ser ouvido com toda atenção do mundo. Nenhuma das 10 canções aqui presentes soam deslocadas ou desnecessárias, funcionando muito bem dentro da proposta estabelecida por Fabiano. Obviamente existem aqueles destaques inevitáveis. “Last Stand” abre o álbum com Fabiano mostrando toda qualidade de sua voz. “Distant Shore” tem uma energia muito boa e ótimas melodias, características que compartilha com a belíssima “Behind The Sun”. Já “All Those Minds” me trouxe à cabeça “Seasons”, de Chris Cornell, presente na trilha sonora do filme Singles (no Brasil recebeu o título de Vida de Solteiro), o que não é pouca coisa. “Day After Day” consegue equilibrar de uma forma ímpar beleza e melancolia, sendo a minha preferida em todo álbum. “Raped” consegue ser ao mesmo tempo simples e densa, sendo uma canção muito profunda. A simplicidade também o mote de “Morning Rain”. “Let There Be Life” fecha de forma muito forte, tendo talvez a melhor interpretação de Neri em todo o álbum.

Gravado no estúdio Minster (Campinas/SP), em incríveis 7 horas, o trabalho teve a produção de Fabiano e Ric Palma, sendo que esse também cuidou da mixagem e masterização. O resultado é perfeito e se encaixou perfeitamente dentro da proposta acústica do álbum. Abordando um assunto sério e pesado, mas de uma forma bem pessoal e emocional, Fabiano Negri não só esbanjou talento, mas também de sensibilidade, fazendo de The Lonely Ones um álbum que transborda sentimentos em cada canção. Uma aula de empatia, algo que está cada vez mais em falta no mundo de hoje.

NOTA: 88

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segunda-feira, 16 de abril de 2018

Magnum – Lost On The Road To Eternity (2018)


Magnum – Lost On The Road To Eternity (2018)
(SPV Steamhammer/Shinigami Records - Nacional)


CD 1
01. Peaches And Cream
02. Show Me Your Hands
03. Storm Baby
04. Welcome To The Cosmic Cabaret
05. Lost On The Road To Eternity
06. Without Love
07. Tell Me What You’ve Got to Say
08. Ya Wanna Be Someone
09. Forbidden Masquerade
10. Glory To Ashes
11. King Of The World

CD 2 (Live)
01. Sacred Blood – Divine Lies
02. Crazy Old Mothers
03. Your Dreams Won’t Die
04. Twelve Men Wise And Just

Desde seu surgimento, no ano de 1972, o Magnum construiu uma carreira sólida dentro do cenário do Hard Melódico/AOR. Seu debut, Kingdom of Madness (78), chegou a despertar a atenção de alguns, mas começaram mesmo a se destacar com seu 3º trabalho, Chase the Dragon (82), chegando ao auge (ao menos em popularidade) com os álbuns On a Storyteller’s Night (1985), Vigilante (1986) e Wings of Heaven (1988). Daí para frente, todos sabem o que ocorreu. O Grunge surgiu e modificou completamente o mercado, fazendo com que em 1995 os ingleses anunciassem seu fim, em um hiato que perdurou até 2001.

Mesmo nesse período, Bob Catley (vocal) e Tony Clarkin (guitarra), que são o coração do Magnum, não deixaram de trabalhar juntos, formando o Hard Rain ao lado do baixista Al Barrow, que acompanhou a dupla em 2001, quando resolveram reativar a banda. Desde então, foram aos poucos recolocando o grupo em posição de destaque, sendo que Lost On The Road To Eternity é seu 9º álbum desde o retorno, e 20º de toda a carreira. E aqui não tem muito mistério, já que o fã sabe exatamente o que vai encontrar em um álbum dos ingleses.

Bob Catley continua cantando uma enormidade, e consegue cativar qualquer um com seus vocais, enquanto seu parceiro de sempre, Tony Clarkin, mostra que merece mais reconhecimento, nos entregando riffs marcantes e melodias realmente grudentas. Al Barrow mostra porque é dono do posto de baixista há 17 anos e esbanja competência em seu instrumento. Apesar da estabilidade da formação desde o retorno, aqui temos 2 estreias. Na bateria. Harry James saiu, sendo substituído por Lee Morris, nome que os fãs de Paradise Lost conhecem bem. Já nos teclados, Mark Stanway, tecladista de longa data da banda, partiu, e em seu lugar agora temos Rick Benton, que já vinha tocando ao vivo com a banda desde 2016. Coube a ele a mais espinhosa das missões, e ele conseguiu se sair muito bem.


São 11 canções típicas do Magnum, com alguns altos e baixos, mas nada que comprometa de verdade o resultado final. “Peaches And Cream” é uma ótima faixa de abertura, animada, cativante e com ótimos vocais de Bob. “Show Me Your Hands” mantém o nível, soando agradável e se destacando pelo solo e pelos teclados. “Storm Baby” é uma típica balada do Magnum, bem melancólica, mas falta algo a mais para torná-la bombástica. “Welcome To The Cosmic Cabaret” é o momento mais épico de todo álbum, e aqui mesclam com competência o Rock Progressivo e o AOR, soando realmente grandioso. “Lost On The Road To Eternity” é um dos grandes momentos do álbum, e conta com a participação especial de Tobias Sammet, retribuindo assim as participações de Catley no Avantasia. A forma como os vocais se complementam é incrível. Daí para frente, o trabalho se torna um pouco inconstante. Se faixas como “Without Love” e “Ya Wanna Be Someone” se destacam pelas ótimas melodias e bons refrões, outras como “Tell Me What You’ve Got to Say”, “Forbidden Masquerade” e “Glory To Ashes”, se não chegam a ser propriamente ruins, tendo suas qualidades, nada acrescentam ao álbum. No encerramento, o nível volta a se elevar com outra faixa épica, “King Of The World”. Na versão nacional, temos um segundo Cd com 4 faixas ao vivo, o que torna esse material ainda mais interessante.

A produção ficou a cargo do guitarrista Tony Clarkin, com mixagem e masterização realizados por Sheena Sear (Avantasia, Marshall Law). O resultado foi muito bom, já que apesar de ter deixado tudo bem polido, não abriu mão da organicidade em momento algum. A capa é, mais uma vez, uma obra do mestre Rodney Matthews (Scorpions, Thin Lizzy, Nazareth, Eloy, Asia), sendo uma verdadeira obra de arte. Mesmo não sendo um álbum que possamos chamar de clássico, Lost On The Road To Eternity é um belo trabalho, já que tem tudo que um fã do Magnum espera. Se gosta de ótimas melodias e refrões grudentos, aqui está um álbum mais do que recomendado.

NOTA: 84

Magnum é:
- Bob Catley (vocal);
- Tony Clarkin (guitarra);
- Al Barrow (baixo);
- Lee Morris (bateria);
- Rick Benton (teclado).

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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Saxon – Thunderbolt (2018)


Saxon – Thunderbolt (2018)
(Silver Lining Music/Shinigami Records - Nacional)


01. Olympus Rising
02. Thunderbolt
03. The Secret of Flight
04. Nosferatu (The Vampires Waltz)
05. They Played Rock and Roll
06. Predator
07. Sons of Odin
08. Sniper
09. A Wizard’s Tale
10. Speed Merchants
11. Roadie’s Song
12. Nosferatu (Raw Version)

Uma verdadeira lenda do Heavy Metal. Quando falamos de Metal Inglês e de NWOBHM, a maioria dos mortais pensa primeiramente em Judas Priest e Iron Maiden. Nada de errado nisso, levando em conta a importância que ambos possuem para a história do Metal como um todo. Mas o Saxon, com seus 40 anos de estrada, não pode de forma alguma ser esquecido. Se não angariou, em matéria de vendagens, a mesma popularidade dos dois nomes citados, conseguiu algo mais importante e difícil do que isso, que é o respeito dos fãs do estilo. Isso é algo que disco de ouro ou platina algum paga. Saxon é sinônimo de Heavy Metal e ponto final.

Falar do Saxon tem algo de especial para mim. Para quem não sabe, foi com uma resenha de Sacrifice (13) que no dia 02/03/2013 abri os trabalhos do A Música Continua a Mesma. E não foi uma escolha aleatória, pois ela se deu motivada justamente por esse respeito citado acima. Pouco mais de 5 anos se passaram e o quinteto formado por Biff Byford (vocal), Paul Quinn (guitarra), Doug Scarratt (guitarra), Nibbs Carter (baixo) e Nigel Glockler (bateria) chega ao seu 22º trabalho de estúdio, vivendo talvez sua melhor fase desde os anos 80. E Thunderbolt não decepciona.


Impressiona-me como Biff Byford parece não sentir o efeito do tempo. Continua simplesmente monstruoso, soando em muitos momentos até melhor do que nos anos 80 e 90. Sua voz não perdeu nada da qualidade nesses 40 anos frente ao Saxon, e continua forte e marcante. É um dos grandes diferenciais aqui. Paul Quinn e Doug Scarratt também estão monstruosos. Os riffs que são apresentados não são apenas ótimos, mas típicos da NWOBHM, e os solos estão primorosos. As guitarras gêmeas não poderiam faltar, e dão as caras de forma muito harmoniosa, soando incríveis. Fora isso, precisamos falar do peso das mesmas. Nunca em toda a sua história, o Saxon soou tão pesado quanto agora. Enquanto a lógica das bandas de sua geração é tirar um pouco o pé do acelerador (algo justificável e aceitável), eles fazem justamente o contrário. E é justamente esse peso que deixa a música do grupo atual e moderna, sem que eles precisem abrir mão de qualquer das suas características. Quanto a Nibbs Carter e Nigel Glocker, ambos possuem seus momentos de brilho durante Thunderbolt. Realizam um belíssimo trabalho, soando fortes e coesos.

Após uma breve introdução com “Olympus Rising”, surge a faixa título, um dos grandes destaques do trabalho. Estrondosa, com riffs fortes e os vocais inconfundíveis de Biff, tem tudo para se tornar um clássico do Saxon. “The Secret of Flight” é outra que tem tudo para virar clássica. É uma aula de Heavy Metal, soando imponente e com riffs muito incisivos, além de ótimas melodias. “Nosferatu (The Vampires Waltz)” é mais cadenciada e muito pesada, possuindo um ar bem sombrio, enquanto a excelente “They Played Rock and Roll” é diametralmente oposta, já que é uma homenagem a Lemmy e ao Motorhead, sendo assim uma canção dura, pesada e rápida. “Predator” é outra que esbanja peso, e surpreende pela inclusão de vocais guturais, executados aqui por Johan Hegg, do Amon Amarth. Isso a deixou com um ar feroz e sombrio.


“Sons of Odin” abre a segunda metade com uma levada mais cadenciada e soa simplesmente épica. Destaca-se não só pelas ótimas melodias, mas também pelo brilhante trabalho das guitarras e da bateria, que soa muito forte. Por algum motivo, me remeteu à fase de Dogs of War (95). Na sequência, temos “Sniper”, canção que soa bem bruta e enérgica, além de possuir um refrão muito legal. O tom mais épico volta a dar as caras em “A Wizard’s Tale”, outra que conta não só com boas melodias, como com riffs de muita qualidade, graças ao primoroso trabalho da dupla formada por Quinn e Sacarratt. “Speed Merchants” faz jus ao nome e esbanja energia, além de boas harmonias e melodias, sendo outro ponto alto do álbum. Se encaminhando para o final, temos “Roadie’s Song”, que é exatamente o que diz o nome, ou seja, uma homenagem aos roadies, peças fundamentais para que os shows aconteçam. É uma daquelas típicas canções do Saxon. Encerrando, temos uma outra versão para “Nosferatu”.

Toda a parte de produção ficou mais uma vez por conta de Andy Sneap, que já vem trabalhando com a banda desde Sacrifice. Nem preciso enaltecer a qualidade da mesma aqui. O legal de suas produções é que, mesmo que tudo fique claro e cristalino, as mesmas ainda assim soam bem pesadas e orgânicas, algo raro hoje em dia. Já a capa é obra de Paul Raymond Gregory, que já trabalhou inúmeras outras vezes com a banda, sendo responsável por trabalhos clássicos como Crusader (84), Dogs of War e Unleash the Beast (97). Mais uma vez o Saxon nos presenteia com um trabalho sólido, criativo e cativante, e que vai fazer a alegria dos fãs de Heavy Metal, que certamente baterão cabeça e erguerão os punhos para o ar durante a audição de Thunderbolt. Mais uma vez, o Saxon não decepciona!

NOTA: 93

Saxon é:
- Biff Byford (vocal);
- Paul Quinn (guitarra);
- Doug Scarratt (guitarra);
- Nibbs Carter (baixo);
- Nigel Glockler (bateria).

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Anvil - Pounding The Pavement (2018)


Anvil - Pounding The Pavement (2018)
(SPV/Steamhammer/Shinigami Records - Nacional)


01. Bitch In The Box
02. Ego
03. Doing What I Want
04. Smash Your Face
05. Pounding The Pavement
06. Rock That Shit
07. Let It Go
08. Nanook Of The North
09. Black Smoke
10. World Of Tomorrow
11. Warming Up
12. Don´t Tell Me (Bonus Track)

Muitos consideram o Anvil uma banda subestimada, e que merecia estar em uma posição muito melhor do que se encontra. Já outros, afirmam que são superestimados, muito em virtude do documentário de 2009, Anvil! The Story of Anvil, que mostrou as agruras pelas quais passaram Steve “Lips” Kudlow (vocal/guitarra) e Robb Reiner (bateria) nas últimas décadas para manter o Anvil vivo, o que acabou fazendo com que angariassem a simpatia de muitos fãs de Metal que até então ignoravam a existência do mesmo.

No fim, o que conta é que já são 41 anos de serviços bem prestados ao Heavy Metal, e álbuns como Metal on Metal (82), Forged in Fire (83) e Pound for Pound (88) que podem ser, goste você ou não da banda, colocados entre os clássicos do estilo nos anos 80. A fidelidade do Anvil ao estilo, mesmo nos nebulosos anos 90, assim como sua obstinação em enfrentar todos os obstáculos e situações adversas com as quais se depararam nessas 4 décadas, são prova do amor incondicional de Steve e Robb pelo Metal.

Em Pounding The Pavement, seu 17º trabalho de estúdio, o que vamos encontrar é exatamente aquilo que esperamos de um trabalho do Anvil, para o bem e para o mal, ou seja, aquela mescla de Hard e Heavy, com toques de Speed aqui e ali, que sempre marcou sua carreira. O Anvil não muda e nem vê motivos para fazer isso. Os vocais roucos de Lips continuam ali, firmes, fortes e característicos, enquanto sua guitarra despeja riffs sólidos e de qualidade. Chris Robertson, em seu 2º álbum com a banda, mostra um bom trabalho, enquanto Robb Reiner nos entrega exatamente o que esperamos, ou seja, um trabalho muito sólido de bateria.


Se não apresenta novidades, ao menos o Anvil acerta a mão na maior parte dos temas aqui apresentados, por mais que tenhamos um ou outro momento na qual a qualidade decai um pouco. A sequência de abertura é bem positiva, com “Bitch In The Box”, uma típica música do Anvil, com riffs totalmente oitentistas, e as barulhentas e “motorheadianas” “Ego” e “Doing What I Want”, que são vibrantes e divertidas como devem ser. “Black Smoke” é outra nessa mesma pegada, não negando as influências de Lemmy & Cia. Outros destaques ficam por conta da instrumental "Pounding The Pavement", com um ótimo trabalho de bateria, e as surpreendentes “Rock That Shit” e “Warming Up”, com seus pés fincados naquele Rock and Roll dos anos 50 e influências de Chuck Berry. Em contrapartida, “Smash Your Face” não empolga e, se não chega a ser ruim, é no mínimo uma canção genérica, assim como “Nanook Of The North” (apesar da boa cadência) e “World Of Tomorrow”, quase um plágio de “Sweet Leaf”, do Black Sabbath.

Gravado no Soundlodge Studio, na Alemanha, o trabalho teve produção de Jörg Uken, com um resultado final muito bom, já que tudo está bem claro e audível, mas sem excessos. A capa, seguindo o padrão Anvil de sempre, foi obra de Christoph "Stripe" Schinzel, que já vem trabalhando com o grupo desde Still Going Strong (02). Como sempre, um trabalho divertido e que cumpre bem a sua função. Se persistência é uma virtude, nenhuma banda é mais virtuosa que o Anvil.

NOTA: 83

Anvil é:
- Steve "Lips" Kudlow (vocal/guitarra);
- Chris Robertson (baixo);
- Robb Reiner (bateria).

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terça-feira, 10 de abril de 2018

Angra - Ømni (2018)

Angra - Ømni

Angra - Ømni (2018)
(earMUSIC/Shinigami Records - Nacional)


01. Light of Transcendence
02. Travelers of Time
03. Black Widow's Web (feat. Alissa White-Gluz)
04. Insania
05. The Bottom of My Soul
06. War Horns (feat. Kiko Loureiro)
07. Caveman
08. Magic Mirror
09. Always More
10. ØMNI - Silence Inside
11. ØMNI - Infinite Nothing

Antes de tudo, farei algumas considerações. Incomoda-me demais a forma como o fã de Metal no Brasil trata suas bandas. Existiu uma época na qual dizíamos que o brasileiro só dava valor a uma banda nacional quando a mesma ganhava reconhecimento e respeito no exterior. Hoje em dia, ouso dizer que nem isso, já que nem mesmo estas escapam das pesadas críticas. Parece que muitos headbangers por aqui sofrem com dois graves problemas, o complexo de vira-lata e o saudosismo agudo. Para esses, se é nacional, não presta, e as bandas deveriam repetir eternamente as batidas fórmulas dos anos 80 e 90, lançando o mesmo álbum por toda a carreira (poucas são, a nível mundial, as que podem se dar esse luxo).

Veja o caso do Angra. Obstante todas as turbulências e mudanças de formação que passaram em mais de 25 anos, continuam altamente respeitados no exterior, e vivendo para muitos uma de suas melhores fases. Ainda assim, é possível encontrarmos por aqui pessoas que criticam pesadamente a banda. Se a crítica fosse unicamente pelo aspecto musical, ok, afinal, ninguém é obrigado a gostar de uma banda apenas por ela ser respeitada lá fora (e aqui entram sem problema algum aqueles que lamentam por eles não se limitarem a lançar cópias de Angels Cry (93), Holy Land (96) ou Rebirth (01)), mas a verdade é que quase sempre as mesmas se dão por questões alheias à sua música.

Já vi pessoas criticando a banda pelo seu profissionalismo, por ela querer levar sua música a outros públicos, seja através de participações em eventos populares ou convidando músicos de outros estilos para participações especiais, ou simplesmente pelo músico X ou Y não estar mais na banda, como se fossem insubstituíveis. Até que Fabio Lione, que é tranquilamente um dos maiores vocalistas da história do Power/Prog, é um vocalista limitado, já vi falarem por aí. Vivemos a era dos Haters, onde o importante é simplesmente falar mal e despejar seu ódio contra algo, mesmo que sem critério algum. Uma prova disso é que antes mesmo de Ømni sair, já era possível ver pessoas falando mal do álbum sem nem mesmo ter escutado uma simples nota do mesmo.


Quando do lançamento de Secret Garden (15), o Angra vinha de uma fase turbulenta, com dois trabalhos que não eram dos mais empolgantes (ao menos para mim), Aurora Consurgens (06) e Aqua (10), um rompimento complicado com o baterista Aquiles Priester, e a saída do vocalista Edu Falaschi. Talvez por não se esperar tanto da banda naquele momento, o álbum acabou surpreendendo por sua profundidade, peso e modernidade. Foi um trabalho sólido, onde lançaram as bases para uma nova fase que estava por vir, trazendo definitivamente seu Power/Prog Sinfônico para o século XXI. Ok, não podiam imaginar que perderiam Kiko Loureiro para o Megadeth, mas ali estava o futuro musical da banda.

Nesse ponto, ØMNI não só é a continuação natural de Secret Garden, como possivelmente é seu trabalho mais ambicioso. Se já haviam colocado um pé fora da sua zona de conforto (e da dos fãs, claro), aqui trataram de colocar o outro, pois podemos ouvir um Angra mais complexo, com maior musicalidade, técnica e peso, e claro, sem medo de experimentar e diversificar sua música. Ao mesmo tempo em que temos momentos totalmente voltados para aquele Power Metal típico, ou seja, veloz e melódico (mas soando muito atual), também temos um maior apelo Prog. É também seu álbum mais pesado. Admito, não é álbum fácil, que se pega com um par de audições, já que ele nos exige muito mais, mas quando você se permite escutá-lo de cabeça aberta e sem opiniões preestabelecidas, ele ganha um novo brilho. E foi isso que ocorreu comigo.

O que temos aqui são 11 canções que soam acima da média, onde o Angra mescla com a competência mais que habitual Power, Prog e Metal Sinfônico (na medida certa, sem os exageros que ouvimos por aí), com passagens de Fusion e elementos percussivos que enriquecem demais o resultado final. Fábio Lione mostra o porquê de ser um músico diferenciado e respeitado dentro de seu estilo. Sua voz soa forte e consegue dar agressividade e emoção às canções. Rafael Bittencourt também se sai bem nos momentos em que assume os vocais, se mostrando bem sólido e agradando bastante. Além disso, ao lado de Marcelo Barbosa, executa um trabalho magistral nas guitarras, com riffs fortes, pesados, além de ótimos solos. Felipe Andreoli mostra a competência habitual no baixo, formando uma parte rítmica muito técnica e variada ao lado do ótimo Bruno Valverde.


A sequência de abertura é daquelas que vai fazer a alegria de qualquer fã de Power Metal. “Light of Transcendence” é veloz, com ótimas melodias, riffs pesados, possui um refrão cativante e tem uma utilização perfeita dos elementos sinfônicos (os arranjos no álbum ficaram a cargo de Francesco Ferrini, do Fleshgod Apocalypse). Já “Travelers of Time” até engana com os elementos percussivos do seu início (muito bons por sinal), para depois seguir uma linha mais tradicional. Os vocais de Fábio estão ótimos e Rafael surge como um diferencial interessante na parte final da canção. Definitivamente, uma canção épica. “Black Widow's Web” merece uma atenção especial, pois é uma faixa que causou bastante polêmica por contar com participação especial de Sandy. Ao que parece, para alguns ter uma cantora de apelo popular em uma canção faz da mesma algo ruim. Não vou negar que em um primeiro momento essa é uma canção que causa certo estranhamento, mas de forma alguma isso se dá pela participação da referida cantora. A questão é que aqui o Angra resolveu pensar um pouco “fora da caixa”. A participação de Alissa White-Gluz dá à mesma um nível de agressividade e peso que não é padrão em se tratando da banda, fazendo dela uma música intensa, escura e diferente de tudo que a banda já fez. É um dos destaques de Ømni.

O lado Prog Metal dá as caras na ótima “Insania”, que possui boas melodias, algumas passagens mais pesadas e um dos melhores refrões de todo o álbum. “The Bottom of My Soul” é a primeira balada do álbum e conta com os vocais de Rafael, que se sai muito bem. Tem um ar mais dramático e se destaca pelo bom solo. O Power Metal volta a dar as caras com a ótima “War Horns”, que conta com vocais fortes, um refrão que cativa e ótimo trabalho de guitarras. Por sinal, conta com a participação de Kiko Loureiro. “Caveman” tem uma pegada mais experimental, com forte utilização de percussão e parte da letra cantada em português. Sua pegada é mais Prog, e após o estranhamento inicial, se torna uma das faixas mais interessantes aqui presentes. Por falar em Metal Progressivo, em “Magic Mirror” o estilo domina por completo, com boa dose de complexidade, um trabalho muito legal de guitarras e uma pitada de Dream Theater. “Always More” é a segunda balada aqui presente, soando bem emocional e fugindo um pouco do trivial, além de belos vocais. Fechando o álbum, a dobradinha “ØMNI - Silence Inside”, com sua combinação perfeita de Power e Prog, melodias cativantes, boas passagens percussivas e riffs poderosos e a instrumental “ØMNI - Infinite Nothing”, com melodias de todas as canções anteriores.

Como em time que está ganhando não se mexe, na produção repetiram a escalação de Secret Garden, com Jens Bogren cuidando da produção e mixagem e Tony Lindgren sendo o responsável pela masterização. O resultado não é menos do que excelente. Já a capa foi obra de Daniel Martin Diaz, com o layout e artes adicionais feitos pelo brasileiro Gustavo Sazes. Acompanha a alta qualidade da música. Se Secret Garden estabeleceu as bases para o futuro do grupo, Ømni vem para consolidar de vez sua proposta para os próximos anos. Os haters de plantão podem bradar aos quatro ventos, babando de ódio, que o Angra acabou, mas como uma fênix, ele insiste em renascer de suas cinzas, turbulência após turbulência. Você pode gostar ou não do trabalho da banda (pelo aspecto musical), mas o respeito à importância da mesma para a história do Metal no Brasil é algo essencial. E que venham muitos outros grandes álbuns por aí.

NOTA: 90

Angra é:
- Fabio Lione (vocal);
- Rafael Bittencourt (guitarra/vocal);
- Marcelo Barbosa (guitarra);
- Felipe Andreoli (baixo);
- Bruno Valverde (bateria).

Participações Especiais:
- Alissa White-Gluz (vocal em “Black Widow's Web”);
- Sandy (vocal em “Black Widow's Web”);
- Kiko Loureiro (guitarra solo em “War Horns”);
- Francesco Ferrini (orquestrações);
- Alessio Lucatti (teclados);
- Nei Medeiros (teclados em “Insania” e Always More”)
- Tiago Loei (percussão em “Insania");
- Dedé Reis (percussão em "Travelers of Time", "Black Widow's Web", "War Horns" e "Caveman")
- Wellington Sancho (percussão em "The Bottom of My Soul", "Magic Mirror", "Always More" e "ØMNI - Silence Inside")

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